Na massa do sangue

O Silva é um digníssimo gestor de empresas públicas ou de capital maioritariamente público. Indiferente à rotatividade partidária na governação - o partido a que está afecto tem sempre quota garantida no bem comum e ele vive demasiado conectado para cair da proverbial carroça - vai cumulando directorias, regalias e demais mordomias.
Não é muito competente, nem por aí eficiente, mas a visão cilíndrica e o discurso redondo evitam-lhe grandes fífias nos momentos agudos. Depois, conhece todo o mundo e ninguém, sabe onde estão enterrados os cadáveres e quais os telhados de vidro mais frágeis. Adapta-se bem aos diversos ambientes, confunde-se lindamente com a vegetação e tem um apurado instinto de presa, perseguindo com notável sucesso objectos em movimento.
Provém de uma família com tradição no clientelismo e apelido recorrente nos anais da república. O avô Silva usava "cuidar dos seus". Não era de mexer cordelinhos em favor dos filhos - pelo contrário, incutiu-lhes a paixão de vencer por mérito - mas puxava com mestria os fios para salvaguardar os interesses de pessoas a quem entendia dever solidariedades de berço e vida. Que eram muitas. A gente da sua terra. Os que para ele trabalhavam, os que o haviam ensinado, os que o tinham amado e os que lhe faziam o favor de ser seus amigos.
Era a época do apadrinhamento. Em que até para contínuo se entrava por pedido e os camponeses vinham para a cidade com um nome no bolso. O probo avô Silva, apontado como íntegro e incorruptível pelo seu mundo, decerto nunca pensou que havia homens sem nome no bolso. Em sua defesa se diga que para aquela geração a igualdade era conceito e a caridade virtude.
Per natura, a geração da mãe Silva foi revolucionária. E ela era uma mulher do seu tempo. Pelos homens sem nome no bolso, contra a caridadezinha, marchou, marchou... As solidariedades eram outras e o favorecimento uma arma ao serviço de ânsias reformistas. Em sua defesa se diga que para aquela época estava no lugar certo. O que só a beneficiou. E aos seus. Il faut que quelque chose change pour que tout reste le même.
Ontem telefonei ao Silva neto para cobrar dívida antiga com um favor pessoal. Nada que o obrigasse a infringir códigos ou mesmo éticas, dado, inclusive, o preço da ética nos dias de hoje. Ele ficou contente por me ter pago, quase vindicado. Já eu sinto-me um pedaço cefalópode e, por mais que tente, não consigo lavar bem o tentáculo.
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